Campo Bom – Há três semanas, os moradores de centenas de cidades do Rio Grande do Sul vivem um verdadeiro pesadelo. Em Campo Bom, o cenário após a maior cheia já registrada no Rio dos Sinos, seguida de um repique, ainda assombra moradores dos bairros ribeirinhos.
Os lares, considerados pelas famílias como significado de aconchego e conforto, agora mostram as marcas da força da natureza. Para além de móveis e eletrodomésticos, a enchente destruiu memórias afetivas guardadas dentro de cada residência.
Na casa de Roseli Baptista, de 34 anos, moram seis pessoas: ela, o esposo, de 37 anos, e quatro filhos: Gustavo, de 16; Kauê, de 13; Arthur, que completa sete anos nesta quinta-feira (23); e a pequena Valentina, de dois anos. Entre as poucas coisas que se salvaram na residência da família, estão alguns brinquedos das crianças, que colorem o cenário marrom, coberto pela lama pós-enchente.
Roseli conta que mora no bairro Barrinha desde que nasceu e já enfrentou dezenas de enchentes ao longo da vida. Contudo, a cheia registrada na segunda semana de maio, foi surpreendente: a água chegou a atingir as lâmpadas da casa.
Pesadelo duplicado
Na quinta-feira (2), por volta das 16h, Roseli e a família saíram de casa rumo ao abrigo no Ginásio Municipal, aconselhados pela Defesa Civil. Antes, ergueram todos os móveis e pertences acima do nível da última cheia, em novembro do ano passado.
Na semana seguinte, ao retornar para casa, encontraram uma cena de terror: móveis destruídos e lama por todos os lados. Mal deu tempo de finalizar a limpeza e colocar em ordem as doações recebidas, e já precisaram sair, novamente às pressas, no domingo (11). “Foi o ‘presente’ de Dia das Mães”, lamenta.
Lembranças perdidas e recomeço
Após passar 19 dias no abrigo, a família voltou para casa, na rua Mathias Müller. Em meio à tristeza de ver os pertences conquistados com muito trabalho – ela, em atelier de calçado; ele, na olaria –, resumida a uma pilha de entulho, encontram resiliência para reconstruir o lar.
“Minha pequena completou dois anos no fim de abril. Perdemos tudo, até os presentes que ela ganhou na festinha”, lembra a mãe, pensando no aniversário do próximo filho. “Arthur faz sete anos quinta-feira e, desta vez, não vamos poder comemorar”, comenta. Na parede da sala, um quadro dos dois filhos mais velhos. “É a única foto que sobrou. A última lembrança que eu tinha da minha mãe, uma foto, agora perdi”, lamenta.
Roseli conta que sempre gostou de morar na Barrinha, apesar das enchentes que enfrentou. Porém, desta vez, o desgaste de ter perdido tudo venceu o desejo de continuar morando ali. “Já falei que não quero mais. Estamos procurando uma casinha para alugar. Não quero mais passar por isso”, desabafa.
Por Mairan Pacheco























































