Região – Abordado nas últimas semanas, o fim da obrigatoriedade de aulas para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), sugerida pelo Ministro dos Transportes, Renan Filho, vem gerando discussões em todo o Brasil.
O ministro defende que, com a medida, o Governo Federal visa reduzir a burocracia para a emissão da carteira de motorista. Segundo ele, atualmente, este processo é “caro, trabalhoso e demorado”, motivos que “impedem” as pessoas de ter CNH no país. Atualmente, o custo para a emissão do documento é de aproximadamente R$ 4 mil.
Caso aprovada, as provas teóricas e práticas continuam sendo aplicadas pelos Centros de Formação de Condutores (CFCs), mas o candidato poderá estudar de forma livre, sem frequentar os CFCs.
Ouvidos pela redação do Grupo Repercussão, diretores de CFCs nos vales dos Sinos e Paranhana demonstram preocupação quanto a essa medida. O principal ponto levantado por eles é a segurança no trânsito. Todos reforçam a necessidade das aulas para a formação de condutores mais conscientes e responsáveis.
Visando debater o assunto e frear essa iniciativa, cerca de 80 representantes de CFCs do Rio Grande do Sul estão se unindo em uma viagem a Brasília, para buscar ajuda junto a deputados, para impedir que a medida seja aprovada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Contra o fim
Presidente do SindiCFC-RS, Vilnei Sessim (foto) destaca que “o fim não é da obrigatoriedade da autoescola. O fim é com a formação do condutor, da segurança, da qualidade de educar o indivíduo para conduzir o veículo com segurança. Você acredita que o trânsito no Brasil, que mata mais de 30 mil pessoas todos os anos, vai melhor com essa medida? É possível perceber que as pessoas vão se respeitar mais e reduzir esse número sem o conhecimento básico que hoje elas têm, frequentando as 45h teóricas e as 20h práticas? Eu concordo com a segurança de ver meu filho chegar em casa depois da faculdade, de meu neto poder atravessar a rua e saber que o condutor que está vendo ele na faixa de pedestre terá o domínio de parar o veículo antes de atropelá-lo”, diz.
Segurança no trânsito
Diretor-geral do CFC de Campo Bom, João Carlos Morais (foto) também é contra a medida sugerida pelo Ministério dos Transportes. Ele destaca que a mesma vai contra um dos principais objetivos dos CFCs, que é formar motoristas cada vez mais conscientes e responsáveis no trânsito. “Essa medida é brincar com a vida dos condutores e dos pedestres”, diz ele, afirmando que a mudança soa como uma ação eleitoreira. “Se isso acontecer, infelizmente, será um retrocesso no trânsito”, comenta Morais, chamando a atenção, também, para os milhares de desligamentos que ocorrerão como consequência da medida. “Além de criar um problema sério de segurança, vão desempregar mais de 200 mil pessoas no Brasil”, completa, indignado com a possibilidade.
Cuidado com a vida
Sócia-proprietária e diretora dos CFCs de Igrejinha e Três Coroas, Dalva Nunes (foto) é contra a medida. “Em nome da segurança no trânsito, nem cogitamos a hipótese. Não cogitamos a hipótese de um trânsito sem educação, sem a devida formação para os condutores”, diz ela, ressaltando que “mesmo com o trabalho árduo dos CFCs, todos os anos perdemos mais de 30 mil pessoas vítimas de acidentes de trânsito. Pessoas queridas, próximas e familiares. Eu mesma já senti a dor de perder pessoas queridas em acidentes. E foi a perda de uma delas que me motiva e me dá forças para lutar por um trânsito mais seguro. Atuo há mais de 28 anos na área, na tentativa de fazer com que ninguém passe pelo que passei. Para que ninguém precise sentir a dor que senti”, diz ela, ressaltando que os CFCs das duas cidades seguem “trabalhando por um trânsito mais consciente, humano e seguro”.
Formação pelos CFCs é fundamental
Diretor de Ensino e Perito em Trânsito, com especialização em Psicologia, Gilberto Seib também é contra esta mudança. Segundo ele, ela “representa um sério risco à segurança no trânsito. A formação oferecida pelos CFCs é fundamental para garantir a segurança de motoristas e pedestres”. O profissional levanta pontos importantes sobre o assunto. “Reduzir as exigências para a obtenção da CNH significa comprometer vidas, além de configurar um retrocesso legal. Essa flexibilização pode resultar em graves consequências sociais e econômicas, como o aumento no número de acidentes, maior demanda por atendimento hospitalar e sobrecarga nos sistemas público de saúde e previdência — impactos que pesam diretamente sobre os cofres públicos”, reforça Gilberto, ressaltando a importância da realização das aulas de autoescola. “A obrigatoriedade do processo formativo não apenas prepara o condutor tecnicamente, mas também contribui para sua educação no trânsito e para o exercício da cidadania, formando motoristas mais conscientes e responsáveis — o que, em última instância, preserva o bem mais precioso: a vida”, argumenta, destacando que “o trânsito continua sendo uma das principais causas de mortes e invalidez no Brasil. E, entre os fatores mais recorrentes, estão comportamentos imprudentes, como negligência, imperícia e atitudes irresponsáveis”.
Gilberto também reforça o trabalho sério e responsável prestado pelos CFCs. “Exercem um importante papel social, promovendo ações educativas em escolas, empresas e comunidades. Essas iniciativas reforçam a conscientização e a educação para o trânsito”, comenta, reafirmando que “abrir mão das aulas práticas é, portanto, expor a sociedade a um cenário de insegurança, colocando todos em risco. É essencial preservar a formação responsável e comprometida com a vida no trânsito”.


















































