Sapiranga – Na segunda metade do século XIX, os habitantes das colônias alemãs enfrentaram um conflito que ainda hoje é lembrado pelos mais idosos e que foi explorado por diversos estudiosos. Nas antigas terras de Kraemer e Schmitt, nas proximidades do alto do morro Ferrabraz, em Sapiranga, um grupo liderado por uma mulher chamada Jacobina tentou instaurar um movimento religioso em uma região carente de assistência médica e religiosa, onde as famílias possuíam baixa escolaridade e limitadas condições econômica.
Filha mais nova de Maria Elisabeth Müller e André Mentz, Jacobina casou-se com João Jorge Maurer. Curandeiro, João se mudou para Sapiranga com Jacobina e, enquanto o marido curava os doentes com plantas e ervas medicinais, Jacobina oferecia ‘cura para a alma’ dos pacientes.
O tratamento de Jacobina era baseado em poderes místicos, quando entrava em estado de letargia e descrição sobre visões celestiais que, supostamente, tinha. Muitas famílias passaram a acreditar e seguir os conhecimentos de Jacobina, que indicava aos seguidores que não fossem mais à missa ou ao culto. Famílias contrárias se uniram a padres e pastores que contrariavam os poderes de Jacobina e iniciaram ataques para desqualificar o movimento.
Foi então, que surgiu o título “Mucker”, como eram chamados os seguidores de Jacobina, qualificados como fanfarrões, falsos profetas e diversos outros apelidos pejorativos. Em 1873, Jacobina e João Jorge foram presos e levados à capital. Jacobina que estava em estado de letargia, foi conduzida em uma carreta até São Leopoldo, sendo escoltada por oito soldados, numa viagem de nove horas de duração. Em São Leopoldo, foi exposta ao público e insultada. Para despertá-la, os médicos usaram picadas de agulha e de ponta de faca. No entanto, apenas o canto dos fiéis, que tinham lhe acompanhado, conseguiu despertá-la, após 5 horas de tentativas.
Um mês depois, foram libertados, sob a promessa de que cessariam seu movimento, dispersando os fiéis. Isso, naturalmente, foi descumprido. Os ânimos foram se acirrando em ambos os lados, até que, no final de 1873 aconteceu a primeira morte.
Alguns membros do grupo dos Mucker foram se dispersando e separando do restante, enquanto outros permaneciam seguindo Jacobina. Diversos assassinatos aconteceram, tanto de Muckers, quanto dos ‘algozes’ que eram contra o movimento.
Em 19 de julho, aconteceu o segundo combate contra os Mucker. As forças legais e mais uma coluna de 300 colonos os atacaram. A casa dos Maurer foi incendiada. Entre os Mucker, morreram cerca de 30 pessoas. 52 foram presas, entre eles os cinco filhos de Jacobina, posteriormente entregues à adoção. Neste momento, Jacobina, João Jorge e seus principais colaboradores não foram encontrados entre os mortos e presos.
O exército foi chamado e enviou 500 homens, com 6 canhões. Dia 25 de julho o exército e moradores locais iniciaram o ataque aos Mucker que haviam se refugiado na mata, entre eles, Jacobina e seus seguidores mais próximos. Em 2 de agosto de 1874 acontece o ponto alto da tragédia Mucker com a dizimação violenta dos seguidores mais próximos de Jacobina.
Atualmente, Sapiranga possui diversos lugares de memória que remetem a esse passado, como a Cruz da Jacobina, a estátua do Coronel Genuíno Sampaio, a estátua de Jacobina, nomes de instituições, ruas e praças que registram a memória da comunidade e expressam diferentes sentimentos em relação a esse passado, em diferentes épocas e contextos da história da cidade.