Campo Bom – Uma menina alegre, apaixonada pelos livros, que adorava brincar de médica e extremamente carinhosa. Esses são alguns adjetivos que podem descrever a pequena Sophia Luísa Moraes dos Santos, moradora de Campo Bom, no Vale do Sinos, que faleceu aos três anos, no mês de julho, após uma longa batalha contra o câncer.
A despedida precoce comoveu toda região, que acompanhou, pelas redes sociais da mãe Kelen Viviane dos Santos, mais de um ano e meio da luta. “A Sophia, não porque era minha filha, ela era uma criança muito especial. Eu chegava na escola para pegá-la, a turma toda estava brincando, correndo e ela estava sentada lendo livro, com as perninhas cruzadas; sempre incentivamos ela. Na igreja, enquanto as outras crianças corriam, ela estava com as mãozinhas para cima cantando. Em casa, ela adorava brincar, correr. Chamava suas bonecas de filhas e cuidava delas como se fosse médica. O que estamos passando, não desejamos a ninguém. Nem se eu tivesse algum inimigo, desejaria isso para ele”, disse ela, sem conter as lágrimas.
O luto é sentido a todos os momentos. Em casa, Kelen e o marido Paulo ainda mantém todos os brinquedos e o quartinho de Sophia segue intocável, assim como sua casinha de boneca construída no pátio de casa pelo pai. “Não sei dizer se hoje isso nos conforta, mas ainda não sabemos o que vamos fazer; por enquanto, estamos deixando tudo do jeitinho como era com ela aqui”, contou Kelen. Na parede da sala, uma foto do ensaio em família após o fim do tratamento é uma das recordações que marcou a batalha contra a doença.

DESCOBERTA DA DOENÇA
Sophia foi diagnosticada com um câncer raro no final de 2024 e início de 2025. Antes, raramente havia adoecido. “Até os dois anos, ela tomou uma vez antibiótico”, lembrou Kelen. Com febre, os pais levaram a filha ao pronto socorro. Em poucos dias, a menina piorou e os médicos descobriram o câncer, cujo tumor já tomava conta do pulmão esquerdo. “Foi tudo muito rápido, passamos a virada de ano no hospital. Em 10 dias, ela não conseguia mais caminhar. Ela passou por cirurgia e precisou remover o pulmão”, contou Kelen. O tratamento seguiu até o mês de setembro, com 28 sessões de radioterapias e 22 quimioterapias.
Um dia por vez

O tratamento do câncer é agressivo e Sophia passou por diversas internações. Durante todo ano, não conseguiu frequentar a escola. “No tratamento do câncer, tu vive um dia de cada vez. A gente começava o dia bem e não sabia como ia terminar ele. Ela começava o dia bem e à noite, às vezes, precisava internar”, lembrou a mãe. Apesar de tudo, Sophia nunca se queixou. “Durante todo o tratamento, por exemplo, ela tomou mais de 100 injeções para imunidade, e nunca reclamou. Fechava os olhinhos e era aplicado, ainda lembro do seu rostinho nessa hora”, contou a mãe.
Piora após o tratamento
De outubro até abril, Sophia viveu a melhor fase. “Voltamos para a escola, a rotina foi recomeçando”, conta a mãe. Por ter apenas um pulmão, ela passou a ter dificuldades, como sentir mais cansaço, mas os médicos diziam que era normal. “Porém, a situação foi agravando. Ela vivia picos diferentes: estava brincando, correndo e, do nada, cansava e a respiração ficava ofegante”, lembrou a mãe. No dia que faleceu, os pais a levaram no hospital, mas não imaginavam que a situação se agravaria tão rápido. Em horas, precisou ser entubada e, após três paradas cardiorrespiratórias, faleceu. “Choramos muito, ficamos com ela no colo por cerca de duas horas; foi muito triste”, desabafa Kelen, citando que o tratamento também trouxe consequências graves ao organismo da filha.
“As famílias precisam de suporte para manter o tratamento”

Apesar de ainda estar em meio a dor do luto, Kelen pensa em outras famílias que estão enfrentando a doença. Ela segue atualizando a comunidade com vídeos contando sobre a batalha da filha, mas quer ir além. “O objetivo é o alerta, chamar atenção para o câncer infantil, existem muito mais casos do que a gente imagina. O raro, infelizmente, acontece com a gente também. Acho que para a Sophia faltou um pouco do olhar no tratamento e pós-tratamento, não era só o câncer, mas uma série de consequências. Tivemos o alerta, mas faltou esse pouco mais”, disse ela.
Kelen quer batalhar para que as famílias em tratamento recebam auxílio financeiro do governo. “Existe um projeto de lei, mas está parado. Eu precisei parar de trabalhar, ficamos com a renda do meu marido. Pagamos co-participações do plano de saúde, mas o que mais gastamos foi com alimentação e deslocamentos a Porto Alegre. Chegamos a alugar apartamento quando ela ficou meses internada. As famílias precisam dessa ajuda; é primordial”, completa.

















































