Sapiranga – Com o fortalecimento das vítimas de violência doméstica e ampliação dos serviços de apoio a elas, profissionais que atuam no Fórum, Ministério Público, Defensoria Pública e prefeitura, através do Centro de Referência no Atendimento à Mulher, passaram a também constatar que era necessário criar um serviço direcionado para os agressores.
Com um termo de cooperação firmado, foi dado início, na semana passada, aos grupos reflexivos de gênero na Comarca de Sapiranga. Eles visam a reeducação de homens que se envolveram em situação de violência doméstica/familiar contra a mulher. A juíza Paula Brun, que estava em substituição da vara criminal quando o trabalho iniciou, pontua como acontece o projeto. Inicialmente, as reuniões reúnem 20 homens. “Estamos selecionando os agressores mais graves, que envolvem lesão, violência física, e os que têm envolvimento com alcoolismo e drogadição. A participação no grupo de reabilitação é uma das medidas protetivas deferida. Se eles não participarem, é descumprimento de medida protetiva e pode acarretar em prisão”, alerta a magistrada.
Os encontros, que acontecem na sala do Tribunal do Júri, estão sendo feitos após o horário do trabalho para não prejudicá-los e previamente agendados. “Cada grupo vai participar de quatro encontros. Neste primeiro momento, são 20 selecionados. Para o próximo grupo, serão 40 homens”, contou a magistrada.
QUEBRAR CICLO DE VIOLÊNCIA
A magistrada Paula reforça a necessidade urgente de criar um mecanismo para quebrar o ciclo de violência. “O principal objetivo é quebrar esse ciclo, eles precisam entender que estão agredindo e que tem outra forma de tratar as mulheres. A vítima é atendida pelo Centro de Referência da Mulher, e com os agressores não tínhamos isso. As vítimas eram fortalecidas, mas os agressores continuavam reincidindo. Tem muita reincidência, casos de pai, de filho, de sobrinho, precisamos quebrar esse ciclo de violência, até eles entenderem que isso é violência. Muitos acham que não tem nada de errado”.
DIRECIONADOS PARA TRATAMENTO
Coordenadora dos grupos reflexivos, a assistente social Silvia Cristina Ferreira Maciel passou por formação e hoje está apta para atuar nesse novo apoio em Sapiranga. “Buscamos também referência em outros municípios para ter entendimento maior. Isso evita reincidência da protetiva, evita proporcionar um crime, porque sabemos que a medida é uma ação determinada pelo Judiciário, mas não inibe o crime, ela afasta o agressor”. Em muitos casos de violência, o agressor tem envolvimento com álcool ou droga. Em razão disso, também há uma parceria com a prefeitura para que eles sejam encaminhados para tratamento.
Prevenção motiva movimentação
Além de evitar reincidência, o movimento também tem por objetivo a prevenção. “A prevenção é o trabalho primordial dos grupos, o foco principal é fazer reflexão, que eles saiam dali refletindo as ações, que eles realmente tenham direcionamento, que é tratamento e encaminhamento para tal”, destacou Silvia. Os encontros contam, ainda, com a participação de psicólogo e advogado para auxiliar com questões jurídicas e de saúde mental.
Parceria de profissionais do Judiciário, da segurança e de outros setores
A coordenadora Silvia conta que profissionais de diversas áreas também são convidados para participar das reuniões. Na primeira, por exemplo, participou o delegado Clóvis Nei da Silva, que está respondendo pela Polícia Civil de Sapiranga. “Além da juíza, estamos envolvendo autoridades, como delegado, promotor justiça, conselheiros tutelares e oficial de justiça. Queremos que isso dissemine: que existe um grupo com olhar diferenciado para isso. Essa é uma forma de esclarecer dúvidas, de todas as esferas; tudo para mudarmos a realidade da violência contra a mulher”.
Inspiração para outras cidades
Acompanhando as situações de violência doméstica rotineiramente, Silvia reflete que isso tudo exige olhar humanizado. “Não tem outra forma senão através de um trabalho humanizado, esses homens precisam ter uma escuta. Se estamos atendendo a vítima, precisamos trabalhar o agressor também, esse ciclo de violência precisa ser quebrado. Ser humanizado não é ser negligente. Queremos que eles tenham a percepção, que estes encontros realmente ajudem a mudar”, disse ela. A ideia, como formadora, é que o grupo possa inspirar outras cidades. “Estamos abertos para formar parcerias, seja no Sinos, Paranhana ou outra região”, completa Silvia.


















































